21 março 2008

Sobre “A Última Ceia”

Peça: A Última Ceia (Março 2008) Foto: Arquivo GTCCP - IC



Repetindo, são 15 anos de trilha teatral e 40 produções. Números que dizem tudo, no que diz respeito a experiência artística.

Aproveito, por isso, para deixar aqui a minha opinião sobre essa mais recente criação cénica do mais antigo grupo mindelense em actividade.

Ouvi muitos "zunzuns" e opiniões dizendo que esperavam mais da peça. Eu poderia dizer o mesmo, mas não o digo porque aprendi que não se deve ir a um espectáculo depositando grandes espectativas.
Devemos ir ao teatro pensando que vamos ver um bom espectáculo (nada mais do que isso), que vamos nos divertir (não confundir com rir), que vamos aprender algo, que cada espectáculo é um espectáculo e que cada peça tem sua história.

O Grupo de Teatro do Centro Cultural Português - IC já brindou o seu público (que cada vez mais cresce) com diversos tipos de espectáculo. Desde a comédia à tragédia, desde o teatro universal a peças baseadas e/ou inspiradas em escritores ou dramaturgos nacionais.

Acontece que a máxima “Teatro é vida” muitas vezes é confundida com agitação extrema, “adrenalina teatral”, ou mesmo pura palhaçada. O nosso público gosta muito de comédia mas já vai se acostumando com outros géneros, ou não seria o caso de muita gente já não se entusiasmar muito com as peças do grupo Juventude em Marcha (não querendo menosprezar o trabalho do mais prestigiado grupo nacional, pelo contrário). As componentes plástica e técnica impostas pelos grupos internacionais e pelos grupos nacionais mais experientes também têm feito desse público, que respira cultura, um público cada vez mais exigente. Tudo isso não se esquecendo dos cursos de iniciação do Centro Cultural Português que têm injectado mais qualidade nessa cena teatral.

À semelhança de “As Duas Irmãs”, peça apresentada pelo mesmo grupo há alguns anos atrás, “A Última Ceia” é uma peça alvo de uma aceitação selecta, embora com uma carga humorística mais elevada. Trata-se de uma peça baseada num texto inteligentemente escrito. Cabeu agora ao grupo, ao autor da adaptação e ao encenador um cunho pessoal e mais adaptado à nossa realidade. Daí algumas escapadelas a piadas com sabor recente e mais ou menos “a gosto do cliente”. O tema é actual e o fenómeno da “pertofobia” é um facto mais do que claro. O texto é delicioso e as personagens bem construídas. A diferença está, mais uma vez, na minha singela opinião, num desequilíbrio de interpretação, porém, desta vez, menos evidente que se tinha notado em “A Casa de Nha Bernarda (2007)”. O “encarnar” e “desencarnar” de personagens é um caso melindroso, extremamente difícil e que requer muito trabalho. Acontece que os actores dos grupos de teatro nacionais ou não têm tempo para fazer esse trabalho, por razões óbvias, ou os que têm possibilidade de o fazer não o fazem por razões menos óbvias. É uma chamada de atenção que começa no curso de iniciação teatral (de recordar que a maioria dos actores dos grupos de teatro mindelenses já passaram por essa formação). Porém, há “tiques” que são próprios das pessoas (não confundir com o actor) que ficam em qualquer personagem, o que exigiria ainda maior trabalho. Como exemplo, podemos perfeitamente ver o actor Lima Duarte, que já fez inúmeras novelas brasileiras, com personagens diferentes e bem trabalhadas, mas em que há essa marcas que sempre permanecem. O trabalho do actor é diário e constante. Não é à toa que João Branco se considera mau actor. Mas no caso desta peça, demonstrou precisamente o contrário. Mesmo que seu personagem não tenha um grande destaque, é o que mais se destaca, pela brilhante actuação e, talvez por se encontrar numa dimensão diferente da história. Aí sim, há um trabalho de actor. João Branco está aí irreconhecível. Não se ouve a voz do João Branco, não se reconhece a postura do João Branco, não se sente o “espírito” do João Branco. Vê-se sim alguém que não tínhamos conhecido até o momento que ele representa. De tirar o chapéu. É desse trabalho que falo. Por outro lado vê-se outros actores, uns com mais ou menos trabalho, por razões que já disse, óbvias, mas que, por instantes, deixam no ar um déja-vu. Não que seja um problema desse grupo. Não! É um mal geral e é necessário que admitamos isso, para que possamos melhorar nosso desempenho enquanto actores.

Do ponto de vista técnico, um trabalho a levar em conta. A ter mesmo como exemplo. Um trabalho plástico de grande qualidade, tanto no que diz respeito ao desenho de luz, passando pela luminotecnia (parabéns, Edson), como na criação cenográfica. Acho que aí não conta somente os anos de experiência. Conta também a criatividade das pessoas envolvidas. Não esquecer também da trilha sonora bem estruturada e um trabalho de caracterização, como o brasileiro diz, para não botar defeito.

Isso tudo para dizer, de uma forma resumida, que, no geral, a peça é um feito teatral. Diferente de muitas peças que esse grupo nos tem acostumado, o que demonstra uma clara maturidade. Maturidade essa que todos os grupos teatrais do Mindelo estão a demonstrar quando apresentam um trabalho com cada vez maior qualidade, nos mais diversos géneros teatrais que se possa imaginar. O importante é respeitar e saber apreciar o trabalho de cada um, sem se sentir superior aos demais.
Neu Lopes

2 comentários:

Unknown disse...

Belo texto, Neu. Não tenho por onde «botar defeito». Um abraço JB

Anônimo disse...

Parabens Neu
A tua apreciação é verdadeira e muito oportuna